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A encarnação viva da Amazônia em Simpósio do ITF

14.11.2019
Notícias

A encarnação viva da Amazônia em Simpósio do ITF

 Petrópolis (RJ) – O terceiro dia (13/11) do Simpósio Franciscano, no Instituto Teológico Franciscano (ITF), abordou a temática da realidade eclesial na Amazônia. Foi moderado por Frei Ludovico Garmus, representando os professores do ITF, que iniciou citando a fala do Papa Francisco dirigida aos Jesuítas em 8 novembro de 2019: “Abram o futuro, suscitem possibilidades, gerem alternativas, ajudem a pensar de modo diverso. Cuidem de sua relação diária com o Cristo ressuscitado e glorioso e sejam trabalhadores da caridade e semeadores de esperança”. É essa mística que a Igreja espera não só dos jesuítas mas de todos nós, indicou Frei Ludovico.
A seguir fez a apresentação da palestrante, Dorismeire Vasconcelos, da Ordem Franciscana Secular (OFS), leiga consagrada, que trabalha na área pastoral do Xingu desde 1998. Desde 2000 é secretária da Prelazia do Xingu. A palestra abordou o tema: “Realidade Eclesial na Amazônia”.
Dorismeire, após saudar a todos, apresentou os pontos de sua fala baseados em duas realidades: Panorama Eclesial da Pan-Amazônia e Panorama da Realidade Eclesial da Amazônia Brasileira, região do Xingu.
Sobre o Panorama Eclesial da Pan-Amazônia, sublinhou que “para ser Igreja na Amazônia é preciso comprometer-se com o índio, o desprezado e o explorado. É assumir firme sua caminhada, confiante num futuro certo que já vai se tornando presente nas pequenas lutas e vitórias e no reconhecimento dos próprios valores e direitos, na busca da união e da autodeterminação. Não dá para anunciar sem viver a fé e a vida junto aos povos da Amazônia, sejam eles originários ou tradicionais. A justiça tem que estar na base de toda convivência humana e de todo anúncio do Evangelho”, disse.
Continuando, salientou que falar da realidade da Igreja e sua missão na Amazônia exige que se olhe para a Amazônia vendo três interlocutores dessa evangelização: em primeiro lugar, os indígenas – ribeirinhos nativos desse território que foram impactados desde o início pelo processo de colonização e até hoje não são reconhecidos como irmãos por uma minoria; em segundo, os missionários e missionárias que desde os tempos de ocupação dedicaram sua vida em favor da evangelização, conduziram sua convivência fraterna, viram suas missões roubadas e destruídas e seus catecúmenos raptados”, denunciou, referindo-se aos jesuítas, franciscanos, capuchinhos, carmelitas, consolatas e outras congregações que atuam na Amazônia. Em terceiro, os sem Deus, seringueiros, caboclos, migrantes, que vieram buscar soluções de sobrevivência na Amazônia para suas vidas, para suas famílias e foram jogados num ambiente insalubre”, explicou e concluiu: “Não há como fazer ecoar o Evangelho sem olhar essas três figuras importantes na Amazônia”.
“Num primeiro momento da eclesiologia na Amazônia, junto aos três interlocutores, é isso é preciso considerar também o tempo, espaço e fatos”, ressalvou. Segundo ela, os fatos ocorreram num determinado tempo, dentro de um espaço de ocupação e colonização e de evangelização inicial onde a Igreja estava ligada à Coroa (padroado), quer a portuguesa quer a espanhola. Era uma ligação Igreja-Estado (república), onde a Igreja foi utilizada para cumprir duas funções: 1 – tornar os indígenas cristãos; e 2 – tornar os indígenas cidadãos, no sentido de mão de obra para exploração. Ela era vista como um armazém onde se podia explorar, retirar e ali deixar abandonada”. Dentro dessa ocupação existiam também os mitos que ajudaram os homens e mulheres da região a se guiarem e construírem seu imaginário, lendas e fatos que davam a eles o impulso ou para avançar e ocupar seus territórios ou para retrocederem para que não fossem prejudicados. “Isso gerou saberes que orientaram o indivíduo ou grupo para resistir e viver naquela região até os tempos atuais”, contou.
Num segundo momento – isso já no século XX, após processo de expulsão dos jesuítas e retirada das missões -, a Igreja conseguiu rever sua caminhada e prestar um serviço à humanidade, frustrando a idéia da Coroa que queria usar a Igreja para criar fronteira e tomar posse dos territórios. “Liberto do corpo da Coroa e, mais tarde, do peso da república, os missionários começam a se posicionar na defesa dos indígenas e de seus territórios.. A Igreja percebeu o abandono dos povos da Amazônia e começou a criar seus territórios, a ter a mesma compreensão do Evangelho de Jesus Cristo e alicerçar sua existência. Corrigiu seus rumos. Começou a atender os povos isolados, trazendo esperança e conhecimento, cuidando da união e saúde do povo, ajudando a encontrar o progresso e bem-estar até mesmo no interior. Até porque, no interior e na Amazônia, o Estado sempre está ausente. É a Igreja que faz esse papel social também”, explicou.
Mesmo perante às diversidades pluriétnicas e religiosas, e também à biodiversidades, os missionários eram solidários ao povo. Comiam e dormiam de maneira semelhante ao povo, por isso, sofriam os mesmos males. Fizeram da Igreja o diferencial de outras igrejas. “É uma Igreja samaritana, que acolhe, que é profética, que denuncia a violação dos direitos humanos, é contemplativa e profundamente orante. É missionária, porque está sempre indo ao encontro dos povos, sejam eles isolados ou das cidades, comunitariamente. Aprendeu que, para se decidir e avançar no campo da evangelização, é preciso escutar, acolher as ideias e iniciativas que os povos sentem e querem para sua Igreja local”, destacou.
Segundo a palestrante, para o povo que reside no Xingu, o processo sinodal da Amazônia começou há muito tempo.

PANORAMA ECLESIAL DA AMAZÔNIA

Dorismeire apresentou um panorama da realidade Eclesial da Amazônia, sendo o Brasil com maior presença. Segundo ela, a realidade social, é afetada pela violação dos direitos humanos, dos povos e grupos que vivem em situação de vulnerabilidade. “Não que sejam pobres, ao contrário, é pela forma como o Estado se impõe na região, na exploração e implantação de grandes projetos agropecuários, minerais, hidrelétricos e nos avanços da exploração dos recursos naturais ilegais, que fazem com que os direitos dos indígenas sejam violados constantemente”, ressaltou.
Segundo o mapeamento feito pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) em 2017 e 2018, abordando aspectos sobre o direito de vida digna, falta de políticas públicas de qualidade, direito à propriedade para a legalização dos terrenos, direito a liberdade, na Amazônia é como se fosse uma terra sem leis. “Para eles, a liberdade vai até onde querem alcançar mais ou tomar mais terras. Falta integridade e seguridade. Não há a integridade da nossa vida nem há segurança de que hoje ou amanhã estarei viva”, denunciou.
A conferencista falou também sobre o direito ao meio-ambiente sadio. Para ela, a usina hidrelétrica de Belo Monte não é uma energia boa para a Amazônia. “Está matando cada vez mais os rios e os povos”, mencionou. Em relação a superlotação dos presídios, lembrou a chacina ocorrida no final de julho em Altamira. “Muitos que morreram lá eram só de facções, eram detentos que nem tinham sido julgados para verdade da culpa ou não. Sem dizer da má construção dos presídios de Altamira”, esclareceu.
Segundo ela, há um preconceito enorme com os indígenas, negros e LGBT’s. “A escala de homicídios é crescente”.
A mineração é ilegal e legal do alto e baixo Xingu. A questão do petróleo, desmatamento, hidrelétrica, queimadas, megaprojetos de infraestruturas, a falta de demarcação territorial, a não regularização da terra, ausência do direito de consulta prévia, são obras que foram feitas sem sequer os índios serem consultados. “Mesmo assim, o Ibama libera a licença”, frisou.
Onde entra a Igreja nisso? não é só celebrar missa. Mas é defender a vida. Defesa dos direitos humanos e ambientais. O trabalho ausente do Estado acaba sendo suprido pela Igreja, com suas 295 congregações masculinas e 663 congregações femininas, além de 421 instituições sociais, atuando conjuntamente com 1.191 civis. As pastorais existentes são feitas por padres, diáconos, religiosos e religiosos e a maioria leigos e leigas que cuida da vida comunitária e eclesial, onde a maior parte são mulheres, quase 90%.
Para a franciscana secular, há sinais de esperança: missões e acompanhamentos eclesiástico, fé, laicato, juventude, formação laical e pastoral, vocação. Segundo ela, é preciso investir na formação laical, especialmente na forte liderança feminina. “O missionário e missionária que vai à Amazônia tem que conhecer essa realidade. Pois, a gente só pode amar aquilo que conhece”, atesta.

PANORAMA DA REALIDADE ECLESIAL DA AMAZÔNIA BRASILEIRA NO XINGU

“Quem é essa Igreja da Amazônia? É uma Igreja Samaritana, orante, comunitária e missionária? Responder a essas perguntas para nós, amazônicos, é partir das partes para chegar ao todo. A partir dos três olhares da Amazônia: um olhar de amor do nosso quintal, um olhar esperançoso e um olhar cuidadoso”, responde a leiga franciscana.
Pra ela, interessante é a caminhada da sinodalidade entre as comunidades. As decisões são tomadas e decididas em assembleias. A Prelazia do Xingu atende hoje 13 municípios, com 28 padres, 11 seminaristas e 12 congregações religiosas.
Para a conferencista, a experiência do processo sinodal foi um momento de alegria onde pôde ver o retrato da Igreja Amazônica ser abraçada e impulsionada pelo Papa Francisco.
Frei Ludovico, encerrando este momento, disse: “Ouvimos hoje a encarnação viva da Amazônia.” Nesta quinta-feira (14/11), o Simpósio apresentará o tema “Disputas Territoriais, Evangelização e Eclesiologia”, com partilha de temáticas interdisciplinares, envolvendo alunos, professores e demais participantes do Simpósio.

*Frei Canga Manuel Mazoa e Frei Augusto Luiz Gabriel

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