Institucional
30.09.2026
05 APRENDIZADOS COM FRANCISCO DE ASSIS, O HOMEM RECONCILIADO: O QUE ACONTECEU NO SEGUNDO DIA DA SEMANA FRANCISCANA 2026
No dia 29 de setembro, o Instituto Teológico Franciscano (ITF) realizou a segunda live da Semana Franciscana 2026, com o tema "Francisco de Assis, o Homem Reconciliado". A transmissão teve apresentação de Frei Sandro Roberto da Costa, ofm, diretor do Instituto, a moderação da Irmã Juliana Ferreira de Jesus, IFS e doutoranda, e a reflexão de Moema Miranda, professora do Instituto , franciscana secular e doutoranda em Filosofia na PUC-Rio. Moema partiu de dois textos: o artigo de Leonardo Boff de 1975 sobre a atualidade de São Francisco diante do problema ecológico e o livro "O caminho do irmão Francisco", de Pietro Maranesi (Vozes). Assistia a live na íntegra no canal ITFofm no YouTube e veja os cinco aprendizados deste encontro.
1. Falar de Francisco é também falar de cada um de nós
Os santos costumam ser apresentados como seres meio humanos, meio divinos. Por isso, Moema apresentou a proposta de Pedro Maranesi: olhar para o Francisco "demasiado humano". Já Leonardo Boff afirma que ele mergulhou tão fundo no mistério humano que sua experiência continua atual. Irmã Juliana reforçou que a reconciliação, nas dimensões apontadas pela encíclica Laudato Si' (consigo, com o outro, com a criação e com Deus), não é uma realidade pronta, mas em construção. Moema completou que esse caminho "é sempre inventado no caminhar": cada pessoa faz o seu, e por isso falar de Francisco é também falar de cada um de nós.
2. Somos terra: a raiz da crise ambiental é a separação
O núcleo da crise ambiental está na ideia moderna de que o ser humano está sobre a natureza para conhecê-la, dominá-la e monetizá-la. Essa lógica, chamada por Antônio Bispo de civilização "cosmofóbica", também desumaniza parte da própria humanidade. Francisco fez o caminho inverso: ele se despiu, saiu dos muros de Assis e fez uma experiência profunda de encontro com todas as coisas criadas. É o que o Papa Francisco ressalta no parágrafo 2 da Laudato Si': esquecemos que somos terra. A experiência de Francisco é o que o teólogo Raymond Raimon Panikkar chama de "ecosofia", a sabedoria do conjunto da natureza. Como Jesus, Francisco aprende com os lírios e com os pássaros e vive uma relação de fraternidade com todas as criaturas, reconhecendo em Deus, "altíssimo, onipotente e bom Senhor", um pai generoso e cheio de amor.
3. Reconciliar-se é aprender a soltar a própria obra
Quando a Ordem cresceu, foi preciso passar da inspiração para a instituição. A Regra foi contestada pelos irmãos e Francisco teve de reescrevê-la**, chegando a deixar o cargo de ministro. Segundo a Compilação de Assis, ele recusou as regras de Agostinho, Bernardo e Bento e afirmou: "Deus me chamou pelo caminho da humildade e me mostrou o caminho da simplicidade." Para Francisco, a pobreza é liberdade, não autopunição. Nesse momento, ele precisou viver a humildade profunda de não se apropriar nem da própria Ordem que tinha criado. Por vezes a gente está tão identificado com aquilo que faz que, quando precisa mudar, sente que uma parte de nós está morrendo, como se fosse aquela obra.
Durante a live, Frei Sandro trouxe um contraponto: Francisco também foi firme e defendeu com tenacidade aquilo em que acreditava. Como distinguir, então, o ego do compromisso com o Reino? Para Moema, a mística da encarnação e a oração ajudam a depurar essa diferença.
4. A encarnação por amor e a humildade como renúncia ao poder
Uma das partes mais lindas da teologia franciscana é reconhecer que a encarnação do Verbo, a Segunda Pessoa da Trindade, se deu por amor à criação, não pelo pecado humano. Moema contrapôs essa visão à ideia agostiniana de que a encarnação se deve ao pecado. Daí nasce a humildade de Francisco, entendida em dois sentidos: húmus, como terra, como gente feita da terra; e renúncia ao poder. Citando Max Weber, Moema explica que poder é "a capacidade de receber obediência". Humildade, então, para São Francisco é abdicar do desejo de ser obedecido. Essa humildade, vivida na encarnação, na eucaristia e na paixão, é também o caminho da alegria e da partilha.
5. Francisco desmontador dos mitos da modernidade
A experiência de Francisco mostra que é possível ser humano pela partilha, e com isso desmonta três mitos modernos:
Escassez: o mito de que há pouco e é preciso defender o que é "meu", base importante do capitalismo. Em seu lugar, Francisco propõe a abundância que nasce da partilha e da amorosidade.
Separatividade: o mito de que ser humano e natureza, cultura e natureza, são coisas separadas. Em seu lugar, Francisco propõe a relacionalidade, a pessoalidade de todas as coisas e a amorosidade como elo principal.
Supremacia: o mito de que existem humanos melhores do que outros, e que alguns merecem viver mais e melhor do que os demais. Em seu lugar, Francisco se reencontra com todas as criaturas: não só humanos, mas vermes, pedras, flores, raízes, árvores, vento, ar e estrelas.
Conclusão
Nesse percurso de amorosidade, Francisco se torna um homem "reconciliado consigo mesmo, com os irmãos e com o conjunto da natureza". Esse é o fruto do caminho: o Cântico das Criaturas nasce depois de uma noite de medo e angústia, e o Testamento está "cheio de bendições". Por isso Francisco pôde fazer seu trânsito agradecendo à cidade onde viveu, ao Deus da vida e aos irmãos. Oitocentos anos depois, celebramos não a sua morte, mas a sua ressurreição entre nós, pois quem viveu amando e é rememorado não morre jamais.
Sobre a Semana Franciscana
Com o tema “Jubileus Franciscanos: celebrar a memória, reacender o carisma”, a Semana Franciscana 2026 acontece de 28/09 a 02/10, das 20h às 21h30 pelo canal do YouTube ITFofm. A Semana é realizada em preparação para o dia de São Francisco de Assis, reunindo franciscanos e franciscanas de diferentes ramos da família franciscana, leigos, leigas e simpatizantes.
Sob a organização do Instituto Teológico Franciscano (ITF) e em parceria com a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, a Editora Vozes, o Centro Franciscano de Estudos e a Conferência da Família Franciscana do Brasil.
Por Frei Marcelo Tadeu, OFM.
