Institucional
29.09.2026
O TESTAMENTO DE FRANCISCO DE ASSIS EM 10 PONTOS: O QUE ACONTECEU NA LIVE DE ABERTURA DA SEMANA FRANCISCANA 2026
No dia 28 de setembro de 2026, o Instituto Teológico Franciscano (ITF) realizou a live de abertura da Semana Franciscana 2026, com o tema Testamento de São Francisco, abordado como memória, gratidão e inspiração. A live teve apresentação de Frei Sandro Roberto da Costa, diretor do Instituto, moderação de Gilberto da Silva, ofm, e reflexão de Frei Vitório Mazzuco, ofm.
Confira os 10 pontos principais:
1. A "carta de identidade" de Francisco de Assis
Frei Vitório apresentou o Testamento como a "carta de identidade" do santo. Assim como um documento de identidade revela a história de uma pessoa, o Testamento revela a vida de Francisco e a presença de Deus entrelaçada nela: a de um jovem que soube imitar a Cristo.
2. O Testamento é a mística da fraternidade
Frei Vitório lembrou que o Testamento dialoga com todos os escritos de Francisco e nunca foi lido separado das Regras Não Bulada e Bulada. Tem caráter histórico e autoridade porque reúne expressões autênticas da vida do santo. Paul Sabatier, considerado o pai dos estudos históricos críticos do franciscanismo, viu no Testamento a mais alta proclamação do ideal franciscano. Para Kajetan Esser, importante estudioso do documento, ele é uma grande síntese de tudo o que Francisco viveu, e não uma revolução ou um protesto. Nas palavras da reflexão: a Regra rege uma vida e organiza a fraternidade, enquanto o Testamento expressa uma vivência e é a mística da fraternidade.
3. Uma história que vai da conversão à bênção
O Testamento divide-se em 13 parágrafos, que percorrem a conversão, a fé na Igreja, a fé nos sacerdotes, a Eucaristia e a Palavra de Deus. Ele começa pela conversão, entendida como mudança de lugar: Francisco deixa o lugar de quem olha o leproso com amargura e passa ao lugar do próprio leproso, onde exerce misericórdia. O que era amargo torna-se doce para a alma e para o corpo.
4. Obediência e bênção
Nos parágrafos finais, o Testamento chama a uma vida coerente, em que todos sejam humildes e obedientes. A obediência surge como tema novo, com menção ao ofício divino, e o texto termina com uma bênção.
5. Uma vida evangélica e prática
O Testamento descreve a radicalidade de Francisco: uma vida ancorada em Jesus, no meio dos pobres, leprosos e excluídos, sem negar a dignidade de ninguém. Essa vida se concretiza em cinco dimensões: pobreza, penitência, entendida como eliminação de excessos, serviço aos pobres e leprosos; piedade, do latim pius, ligada à paternidade e à maternidade e vida eucarística, a "eucaristização da existência", que reconhece a grandeza de um Deus que, no presépio, se deu como criança.
6. O Evangelho é vida
Francisco não toma nada para si: afirma que foi o Altíssimo quem lhe revelou que deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho. Essa revelação não é êxtase nem intuição qualquer, mas a percepção de ser atravessado por uma vontade maior. O Evangelho é vivo, é encontro com o próprio Jesus Cristo, e o discernimento da vontade de Deus passa pela experiência humana. Frei Vitório apresentou Francisco como o primeiro reformador, que compreende que a Igreja verdadeira é o Reino: ele não sai da Igreja, mas leva a ela o Evangelho.
7. A fraternidade não é uma gaiola
A vida franciscana é relação, e a fraternidade é a essência do carisma. O Testamento reforça essa identidade fraterna e o serviço ao bem comum. A fraternidade é lugar privilegiado do perdão e da festa, um arranjo existencial para o bem comum e para a fidelidade criativa. Ela não é uma gaiola: é livre e inspira a instituição.
8. Escrito em meio ao sofrimento
O Testamento foi escrito perto do fim da vida de Francisco, possivelmente na segunda metade de setembro. Ele sofria uma dor marcada pelo amor, mas ainda assim dor física: trazia os estigmas nas mãos, nos pés e no coração, experiência de grande impacto que também mudou sua vida. Sofria ainda com cegueira, hemorragias, vômitos e hidropisia. Nem na hora da morte teve paz, pois havia tensão entre as cidades de Siena e Assis: sua terra natal queria que ele morresse dentro dos muros, em busca de prestígio.
9. Um clamor profético
O Testamento é a base de todas as ramificações da Ordem Franciscana, inclusive dos ramos femininos. Santa Clara também escreveu um testamento. O documento é lido como clamor profético por uma vida fraterna simples, contra as estruturas que pesam sobre a minoridade. Por isso, todas as reformas franciscanas colocaram o Testamento ao lado da Regra como sinal do modo de viver.
10. Memória, gratidão e inspiração
Mais do que um documento, o Testamento é um grito fraterno, um sinal da minoridade e o testemunho de uma vida que pulsa no coração de todos que seguem o franciscanismo. Nele está o que Francisco viveu, quis dizer e diria hoje. Memória, gratidão e inspiração, ele é fundamental para este momento histórico, de efervescência, ideologias diversas e ramificação do carisma, um tempo que pede clareza sobre o que está no coração de Francisco.
Sobre a Semana Franciscana 2026
A Semana Franciscana 2026, com o tema "Jubileus Franciscanos: celebrar a memória, reacender o carisma", acontece de 28 de setembro a 2 de outubro, das 20h às 21h30, pelo canal do YouTube ITFofm. Realizada em preparação para o dia de São Francisco de Assis, reúne franciscanos e franciscanas de diferentes ramos da família franciscana, leigos, leigas e simpatizantes.
A organização é do Instituto Teológico Franciscano (ITF), em parceria com a Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, a Editora Vozes, o Centro Franciscano de Estudos e a Conferência da Família Franciscana do Brasil.
Por Frei Marcelo Tadeu, OFM.
